O ciclo do cabelo tem três fases principais: a anágena, em que o fio cresce; a catágena, uma transição curta em que o crescimento para; e a telógena, de repouso, ao fim da qual o fio cai e um novo começa a nascer no mesmo folículo. Perder alguns fios todos os dias faz parte desse ritmo normal. A queda vira problema quando o ciclo se desregula, seja porque muitos fios entram em repouso ao mesmo tempo, seja porque a fase de crescimento fica cada vez mais curta.

Cada folículo do couro cabeludo funciona de forma independente, com seu próprio relógio. É por isso que, em condições normais, não perdemos o cabelo todo de uma vez, como acontece com a troca de pelos de alguns animais. Em qualquer momento, a maior parte dos fios está crescendo, uma pequena parte está em transição e outra parte está em repouso, prestes a cair.
Fase anágena: crescimento
A fase anágena é o período em que o folículo está ativo e produz o fio continuamente. As células da base do folículo se multiplicam rapidamente e formam a haste, que cresce em média cerca de um centímetro por mês. No couro cabeludo, essa fase costuma durar alguns anos, frequentemente descritos como algo entre dois e seis anos, e a maior parte dos fios de uma pessoa saudável está nela.
A duração da fase anágena define o comprimento máximo que o cabelo consegue atingir. Quem tem fase de crescimento mais longa consegue deixar o cabelo crescer bastante; quem tem fase mais curta percebe que o fio parece parar em determinado comprimento. Essa característica tem forte componente genético.
Por ser a fase de maior atividade celular, a anágena também é a mais sensível a agressões. Alguns tratamentos oncológicos, por exemplo, interrompem a multiplicação das células do folículo e levam a uma queda rápida de fios que estavam em crescimento.
Fase catágena: transição
Ao fim da fase anágena, o folículo entra na fase catágena, que dura poucas semanas. Nesse período, a produção do fio para, a base do folículo encolhe e o fio se desprende da papila dérmica, a estrutura que o nutria. O fio fica preso apenas na parte superior do folículo, com uma ponta arredondada e esbranquiçada na raiz.
Apenas uma pequena parcela dos fios está nessa fase em cada momento. É uma etapa de preparo: o folículo se reorganiza para o repouso e, depois, para um novo ciclo.
Fase telógena: repouso e queda
Na fase telógena, o folículo fica em repouso por cerca de três meses. O fio antigo permanece no lugar, mas não cresce mais. Enquanto isso, a base do folículo começa a formar um novo fio, que vai empurrando o antigo para fora. A saída do fio velho, que alguns autores descrevem como uma fase própria (chamada exógena), é o que vemos como queda no banho, na escova e no travesseiro.
Uma parte dos fios está sempre nessa fase, e por isso a perda diária de fios é normal. É comum ouvir que perder até cerca de cem fios por dia está dentro do esperado, mas essa quantidade varia com o volume de cabelo, a frequência de lavagem e o penteado. Mais importante do que contar fios é perceber mudanças: uma queda bem maior do que a habitual, que dura semanas, ou uma redução visível do volume.
O que desregula o ciclo
A maioria dos quadros de queda pode ser entendida como uma alteração em alguma fase do ciclo. Os principais mecanismos são:
- Muitos fios entrando em repouso ao mesmo tempo: depois de um evento como febre alta, infecção, cirurgia, parto, perda de peso rápida, dieta muito restritiva, estresse intenso ou início e suspensão de alguns medicamentos, uma grande quantidade de fios sai da fase anágena antes da hora. Como a fase telógena dura alguns meses, a queda costuma aparecer semanas a meses depois do gatilho. Esse quadro é o eflúvio telógeno, suas causas e quanto tempo dura.
- Fase de crescimento cada vez mais curta: na alopecia androgenética, a ação dos hormônios androgênios sobre folículos geneticamente sensíveis encurta a fase anágena a cada ciclo. Os fios nascem mais finos e curtos, num processo chamado miniaturização.
- Interrupção súbita do crescimento: em alguns tratamentos e intoxicações, o fio em crescimento é danificado e cai rapidamente.
- Ataque ao folículo: na alopecia areata, o sistema imunológico interfere no folículo e leva à queda em áreas definidas. Nas alopecias cicatriciais, a inflamação pode destruir o folículo de forma permanente.
- Fatores de saúde geral: alterações da tireoide, deficiência de ferro e outras carências nutricionais, além de alterações hormonais, podem afetar o ritmo do ciclo.
Como cada mecanismo tem causas e tratamentos diferentes, saber qual deles está acontecendo é o primeiro passo. O texto sobre tipos de alopecia e como diferenciar cada forma aprofunda essas diferenças.
Como o ciclo orienta o tratamento
Entender o ciclo ajuda a ajustar expectativas e a escolher a abordagem certa:
- Tempo de resposta: como o fio novo leva meses para nascer e ganhar comprimento, qualquer tratamento precisa de tempo antes de ser avaliado. Desistir nos primeiros meses é um erro comum.
- Correção da causa: no eflúvio telógeno, identificar e corrigir o gatilho costuma permitir que o ciclo volte ao normal. A queda pode continuar por algumas semanas mesmo depois da correção, porque os fios que já entraram em repouso ainda vão cair.
- Prolongar a fase de crescimento: na alopecia androgenética, os tratamentos buscam frear a miniaturização e manter os folículos produzindo fios por mais tempo. Medicamentos usados com esse fim exigem prescrição e acompanhamento.
- Proteger o folículo: em quadros inflamatórios ou autoimunes, o objetivo é controlar a inflamação para preservar o folículo.
Na consulta, o exame do couro cabeludo e dos fios, muitas vezes com tricoscopia, mostra a proporção de fios finos e grossos e sinais de cada fase. Em alguns casos, o teste de tração ou outros exames ajudam a confirmar o quadro. Esse olhar específico sobre cabelo e couro cabeludo é o que se chama de tricologia; entenda o que faz um tricologista.
Perguntas frequentes
Cortar o cabelo muda o ciclo?
Não. O corte atua na haste, fora do couro cabeludo, e não altera o folículo. Pode apenas deixar as pontas com melhor aparência.
Existe época do ano em que o cabelo cai mais?
Muitas pessoas notam aumento da queda em certas estações, como o outono. Costuma ser passageiro, mas uma queda intensa e prolongada merece avaliação.
O fio que caiu volta a nascer?
Na queda normal e no eflúvio telógeno, sim, o folículo forma um novo fio. Em alopecias cicatriciais, o folículo pode ser destruído, e por isso o diagnóstico precoce importa.
Por que a queda aparece meses depois do problema?
Porque o fio que entrou em repouso só cai ao fim da fase telógena, que dura alguns meses. Por isso a causa costuma estar no passado recente.
Entender a sua queda
Saber em que ponto o ciclo do seu cabelo está desregulado muda a forma de tratar e o tempo de esperar resultados. A Dra. Gabriela Cavalari, médica com foco em tricologia, atende no Instituto AG, em São José do Rio Preto (SP), e investiga a causa da queda com exame clínico, tricoscopia e exames quando necessário. Se você percebeu mudança no volume ou na queda dos fios, agende uma análise completa.